Em 1915, um jornal de Lavras contou como seria o mundo em 2011: pílula no lugar de comida e avião que cabia na maleta
O Município publicou a entrevista de um "sábio alemão" com previsões para 100 anos depois. Teve escova elétrica e transplante de órgão, mas também o fim da noite e uma alfinetada nos jornalistas.

Imagine abrir o jornal num domingo de 1915 e dar de cara com o mundo do futuro. Foi o que aconteceu com quem leu O Município, jornal de Lavras, no dia 24 de janeiro daquele ano. Numa página, a reportagem "O mundo em cem annos" contava como os cientistas imaginavam a vida no ano de 2011.
O texto foi encontrado e transcrito com a grafia original pelo historiador lavrense Geovani Németh-Torres no blog História de Lavras, justamente em dezembro de 2010, às vésperas do ano das previsões. Lido hoje, é uma delícia.
O sábio e o jornal de Londres
Segundo O Município, as previsões eram de um "sabio allemão", o dr. Fümmenn Tse, que teria dado entrevista ao correspondente de um jornal londrino chamado The Petalogist. Vale reparar nos nomes: "peta" é palavra antiga para mentira, o que sugere que o texto já nasceu como brincadeira. O próprio jornal de Lavras fecha a reportagem com uma piscadela, pedindo aos leitores que guardem os vaticínios na memória para conferir, "na época própria", se o sábio disse verdades "ou se é um simples phantasista".
Pois a época própria chegou, e passou. Dá para conferir.
Adeus à noite, ao trem e ao almoço
A primeira profecia era a mais ousada: "Não haverá mais noite". Torres de seis mil metros de altura, uma a cada 50 quilômetros, levariam no alto um globo de vidro com um grama de rádio, "que tornará as noites tão claras como o dia". Vela, petróleo, gás e eletricidade iriam para o museu.
O trem também. "As estradas de ferro desapparecerão", dizia o texto, e quem quisesse ver um navio ou um automóvel teria de procurar nos museus de arqueologia. Todo mundo andaria de aeroplano, e com motor a rádio ele ficaria tão aperfeiçoado que haveria avião portátil e desmontável, com todas as peças cabendo numa maleta de mão.
Na mesa, nada de feijão com arroz. "Os homens em geral se alimentarão de pilulas", e cada um levaria no bolso do colete a ração de um mês. Com uma exceção deliciosa: "Os poetas preferirão continuar a alimentar-se de brisas, segundo o systema antigo".
Chuva por encomenda e prédio de 80 andares
As nuvens seriam dirigidas por ondas hertzianas, fazendo a chuva cair onde e quando se quisesse, só nos jardins e nos parques. As casas teriam no mínimo 80 andares: embaixo, os armazéns e os bancos; no meio, os burgueses; e lá em cima, segundo o jornal, "os patetas".
O ouro perderia o valor, porque qualquer menino de colégio conseguiria fabricá-lo no seu laboratoriozinho de brincadeira, e as moedas passariam a ser de sola de couro. Baratas, moscas, formigas e bicho-de-pé seriam extintos. "Só não estará descoberto o meio de extinguir os jornalistas e as pulgas", alfinetou o texto.
O que o sábio acertou
Nem tudo era fantasia. O jornal previu que, com a cultura de tecidos e órgãos, "quem tiver o estomago estragado, pode substituil-o por outro são". O transplante de órgãos virou rotina nos hospitais no século 20. Previu também que bebês seriam gerados em laboratório, o que causaria "grandes protestos e desespero das parteiras", e a fertilização in vitro chegou em 1978. E anunciou aparelhos especiais para limpar os dentes, "movido por electricidade": a escova elétrica está aí em qualquer farmácia.
O resto ficou pelo caminho. A noite continua escura, a gente continua almoçando, o avião não cabe na maleta e, para alívio desta redação, os jornalistas seguem por aqui. As pulgas também.
Lavras em 1915
A graça de ler isso hoje é lembrar a Lavras que leu aquela página. A cidade tinha bonde elétrico desde outubro de 1911, subindo a ladeira da estação até a Praça Barão de Lavras, e o trem era o jeito de chegar a qualquer lugar. Avião, ninguém aqui tinha visto de perto: o primeiro só pousaria em Lavras em 1930, e terminou de rodas para cima num toco da Escola Agrícola, como o portal já contou. Para o leitor de O Município, a maleta com um aeroplano dentro era pura fantasia.
O jornal tinha razão numa coisa: valeu a pena guardar os vaticínios na memória. Cento e onze anos depois, eles ainda divertem.
Fontes
O Município, Lavras, 24 de janeiro de 1915, reportagem "O mundo em cem annos", transcrita por Geovani Németh-Torres em "Previsões para 2011... feitas cem anos atrás!!!", blog História de Lavras (historiadelavras.blogspot.com, dezembro de 2010). Bonde de Lavras: "Centenário do Bonde" e "Os Bondes de Lavras (por Allen Morrison)", blog História de Lavras. Gravura: "La Sortie de l'opéra en l'an 2000", de Albert Robida, c. 1882, a mesma que ilustra a publicação do blog (domínio público, Biblioteca do Congresso dos EUA, via Wikimedia Commons).
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