O primeiro avião a pousar em Lavras deu cambalhota num toco da Escola Agrícola
Foi em outubro de 1930, e a cidade inteira correu para ver. 13 anos depois, Lavras ganhou um campo de aviação erguido na base da vaquinha, e nos anos 1950 tinha voo para o Rio e para BH quatro vezes por semana.

Hoje, avião passando lá no alto não faz ninguém levantar a cabeça. Em outubro de 1930 foi diferente: o primeiro avião a pousar em Lavras parou a cidade, juntou multidão nos terrenos da Escola Agrícola, a atual UFLA, e terminou de rodas para cima por causa de um toco.
O causo foi contado pelo museólogo Bi Moreira num artigo do jornal A Gazeta, em 1939, e resgatado pelo historiador Geovani Németh-Torres na revista Acrópole e no blog História de Lavras.
"Será o inimigo?"
O Brasil vivia a Revolução de 1930, e Minas Gerais estava do lado dos revoltosos. Naquele mês, quatro aviões saíram do Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro, rumo a Belo Horizonte, e fizeram voos de reconhecimento sobre a região de Juiz de Fora e São João del-Rei. Um deles acabou descendo em Lavras, por descuido ou por falta de gasolina.
Bi Moreira escreveu que quando se ouviu o ronco do motor "foi um Deus nos acuda". As casas ficaram vazias e as ruas "pareciam formigueiro". O avião começou a rodear a cidade, e o povo, cá embaixo, assistia de boca aberta. Como era tempo de revolução, alguém arriscou: "Será o inimigo?". Outro respondeu que não, que ele estava procurando onde pousar.
Morro acima
E estava mesmo. Sem achar lugar apropriado, o piloto resolveu descer morro acima, nos terrenos da Escola Agrícola. Fez a manobra com muita perícia, conta Bi Moreira, só que havia um toco no caminho que lá de cima ninguém via. "E o passarinho virou uma cambalhota."
Quando o piloto saiu do avião, a multidão já tinha tomado conta do terreno, passando por cima de plantação e de cerca para ver de perto "a águia motorizada". Fotógrafo amador e profissional gastou filme e chapa até o fim, e o pouso atrapalhado virou assunto de todas as rodas da cidade por muitos dias.
O caminhão voador
Na mesma época nasceu um causo que o escritor Paulo de Oliveira Alves registrou no livro Lavras, Primórdios do Automobilismo e Mais. Duas lavadeiras de uma roça perto de Itumirim só conheciam um veículo a motor, o caminhão que passava por ali a caminho de uma fazenda. Quando ouviram o ronco vindo das nuvens, uma gritou para a outra: "Cumade do céu... óia adonde tá passano o caminhão do sô Zequinha Ribero! É o fim do mundo!". A outra não concordou: "Deve de sê o Divino Esprito Santo, pruquê ele evêm in cruiz!". E as duas saíram em disparada, pulando cerca de arame farpado. Como todo bom causo, este chegou até nós de boca em boca, e é assim que ele deve ser lido.
O segundo pouso e o aeroclube
O céu de Lavras continuou recebendo aviões de passagem, mas um segundo pouso só aconteceu quase nove anos depois, numa segunda-feira, 20 de março de 1939, no campo de aviação do 8º Batalhão. Desta vez, segundo Bi Moreira, os carros de praça não deram conta das corridas, e a cidade foi como pôde: de bicicleta, a cavalo e a pé.
No ano seguinte, em 1º de novembro de 1940, foi fundado o Aeroclube de Lavras, por iniciativa de Santos Ferreira Cavalcante.

Um campo feito na vaquinha
Em 1942, o industrial português Antônio Vaz Monteiro, o mesmo que ajudou a erguer o hospital que leva o nome dele, doou o terreno para o campo de pouso e o hangar. A cidade fez o resto. Uma campanha chamada "Campanha da Boa Vontade, Tudo em Prol da Aviação" juntou dinheiro e mão de obra da comunidade entre setembro de 1942 e julho de 1943.
A inauguração foi em 20 de julho de 1943, com festa. O hangar ganhou o nome de Vaz Monteiro, e durante um bom tempo o campo de aviação foi o assunto da cidade. O primeiro avião do aeroclube se chamava João Ramalho.

Voo para o Rio quatro vezes por semana
Entre 1947 e 1949, a pista passou de 700 para 900 metros, e Lavras começou a receber os aviões das companhias aéreas. Pouca gente mais nova sabe, mas nos anos 1950 a cidade tinha voo comercial com horário marcado.
Um quadro de horários guardado no Museu Bi Moreira mostra a lista. Havia voo para Belo Horizonte e Rio de Janeiro às segundas, terças, quartas e sextas. São Paulo, aos sábados. Governador Valadares, três vezes por semana. E ainda Cambuquira, Caxambu, Patos, Montes Claros, Alfenas, Guaxupé e Passos.
Com as estradas da época, era o jeito mais rápido de viajar, e também o mais chique. Os passageiros iam de terno, chapéu e vestido de domingo, como mostram as fotos do embarque nos aviões Douglas DC-3 da companhia Nacional. O aeroporto também trazia visita: os grandes times do Rio chegavam de avião para jogar amistoso com a Olímpica.

Do campo velho ao aeroporto novo
Os voos de carreira para Lavras acabaram em 1960, e o campo ficou um tempo esquecido. Em 1979 o aeroclube voltou à ativa e formou novos pilotos. Em 8 de julho de 2001, a turma se despediu do campo antigo e levou o aeroclube para o novo aeroporto da cidade, onde também foi erguido um novo Hangar Vaz Monteiro. O aeroporto atual, com pista de 1.500 metros, foi inaugurado oficialmente em maio de 2010.
E você, lembra?
Alguém da sua família embarcou no antigo aeroporto, foi ver os aviões no domingo ou guarda passagem, foto ou história do aeroclube? A redação da Rádio Cultura quer ouvir. Memória de cidade se monta assim, um pedaço de cada vez.
Fontes
Németh-Torres, Geovani. "Que susto! A chegada do primeiro avião a Lavras", "O Aeroporto da Baunilha" e "Década de 1950: os anos de ouro da aviação lavrense", revista Acrópole n. 47 (maio de 2011), publicados no blog História de Lavras (historiadelavras.blogspot.com), com base em Bi Moreira (A Gazeta, 1939), Nelson Freire Lavenère Wanderley (História da Força Aérea Brasileira, 1975), Paulo de Oliveira Alves (Lavras, Primórdios do Automobilismo e Mais, 2005), José Alves de Andrade (Lavras, Sua História, Sua Gente, 2002) e no acervo do Museu Bi Moreira. "História do Aeroclube de Lavras", blog História de Lavras (2017), a partir do histórico do Aeroclube de Lavras.
Mais histórias da cidade no Programa Revista da Cidade, na Rádio Cultura de Lavras 96.5 FM, de segunda a sexta, das 11h às 14h.