Lavras teve cinema que estreou com ópera de Verdi e palco com calouros da Rádio Cultura
Do Cine Internacional de 1911 ao Cine Brasil, que funcionou até 1996, a cidade passou mais de 80 anos indo ao cinema. E o velho teatro da Rua Sant'Ana tinha nascido de uma vaquinha de 70 lavrenses.

Antes da televisão, do videocassete e do celular, sair de casa para ver um filme era programa de domingo, de namoro e de roupa boa. Em Lavras não foi diferente, e a cidade começou cedo: a primeira sala de cinema de que se tem registro por aqui abriu as portas em 1911, dentro de um teatro que já tinha quase meio século de história.
A história está contada em detalhes na Revista do Patrimônio Cultural de Lavras, publicada em 2020 pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do município, a partir de documentos, jornais antigos e do livro do historiador Márcio Salviano Vilela.
Um teatro feito na vaquinha
Tudo começa bem antes do cinema. Em 1862, Francisco Couto e Silva e outros 70 lavrenses se juntaram e compraram cotas de 100 mil réis cada uma, algo como 100 gramas de ouro naquele tempo, para construir o Teatro Sant'Ana. É a casa de espetáculos mais antiga de que se tem notícia na cidade.
O teatro recebia as companhias que rodavam o interior de Minas, com comédias e peças românticas. Em 1882 a Prefeitura assumiu o prédio, e a vida cultural ferveu: havia ópera, concerto e peça escrita por gente da terra. Em 1901, o professor Azarias Ribeiro levou ao palco um drama, "O sacrifício por amor", e uma comédia de título que diz muito sobre a época: "Genro abolicionista e sogra escravocrata".
25 de março de 1911: chega o cinema
Com a energia elétrica veio a novidade. Em 25 de março de 1911, o velho teatro passou a abrigar o Cine Internacional, do empresário Francisco Pizzolante.
Pizzolante não fazia nada pela metade. Em 1914 ele fechou com a Prefeitura um contrato de 20 anos de aluguel, com a obrigação de reformar o prédio inteiro. No mesmo ano, lançou até um jornal para divulgar a programação: o Cine Jornal, um vespertino em formato tabloide, distribuído de graça.
A estreia com "Aida"
A reforma ficou pronta em 15 de fevereiro de 1917, e o prédio reabriu com um nome comprido, que hoje soa engraçado: Teatro Cinema Internacional Bar. Para a estreia, Lavras recebeu a Grande Companhia Lírica Italiana Rotoli-Billoro, que apresentou a ópera "Aida", de Giuseppe Verdi, e ficou na cidade o mês todo com outras óperas famosas. Segundo a revista, Lavras ganhou ali uma das melhores casas de espetáculo do interior do Brasil.
Nas décadas seguintes, já chamado de Cine-Teatro Municipal, o prédio revezava sessão de cinema, peça de teatro, ópera e concerto, sempre tocado por empresários que alugavam o espaço da Prefeitura.






Domingo de calouro, com a Rádio Cultura
A revista aponta 1947 como talvez o auge do teatro. A Rádio Cultura, que acabava de ser inaugurada (o texto registra o nome da época, Rádio Cultura d'Oeste), levava ao palco, aos domingos, um programa de calouros, variedades e literatura chamado "Um milhão de novidades". Os apresentadores eram os locutores Elcídio Grandi e Alfredo Mussi, e o palco recebia cantores, humoristas e artistas lavrenses, com plateia cheia e animada.
O Cine Ipê, o Cine Aparecida e o Cine Brasil
Em 1949, a empresa que alugava o teatro inaugurou um cinema em prédio próprio, com aparelhagem moderna: o Cine Ipê, na movimentada zona norte da cidade, onde ficavam as fábricas e a estação ferroviária.


Em 1955, um grupo de lavrenses ainda tentou transformar o velho teatro em centro cultural da cidade, com biblioteca e museu. O autor da proposta era o jornalista Sílvio do Amaral Moreira, o Bi Moreira, que mostrou fotos do interior do prédio ao patrimônio histórico nacional. O chefe regional do órgão ficou impressionado e considerou o teatro um dos mais interessantes do país. O arquiteto Lúcio Costa, o mesmo que depois desenhou o plano de Brasília, respondeu por escrito que "seria o cúmulo do mau gosto desfigurá-lo".
O tempo, porém, era outro, e a cidade queria novidade. Em 1960 os empresários do ramo fundaram a Empresa Cinematográfica União e abriram o Cine Aparecida, no auditório do Colégio Nossa Senhora Aparecida. Dois anos depois, em 10 de fevereiro de 1962, inauguraram num terreno ao lado da Primeira Igreja Presbiteriana o cinema que muita gente ainda guarda na memória: o Cine Brasil, que funcionou ali até 1996. O prédio ficava de frente para a Praça Dr. Augusto Silva, onde hoje funciona uma agência do Bradesco, e tinha 400 lugares, segundo o site Curta Lavras.






O velho Cine-Teatro da Rua Sant'Ana foi demolido naquele mesmo ano de 1962. No terreno funciona hoje uma galeria de escritórios.
E você, lembra?
Quem viu filme no Cine Brasil ou no Cine Ipê, quem foi à matinê de domingo, quem namorou no escurinho, quem guarda ingresso, cartaz ou foto antiga de fachada, pode procurar a redação da Rádio Cultura. A gente também quer saber quando o Cine Ipê e o Cine Aparecida fecharam as portas, coisa que a pesquisa não registra. Memória de cidade se remonta assim, um pedaço de cada vez.
Na capa, o Cine Brasil, na Praça Dr. Augusto Silva, nos anos 1960.
Fontes
Németh-Torres, Geovani. História da preservação do patrimônio cultural de Lavras (1940-1984), Revista do Patrimônio Cultural de Lavras, ano 1, n. 1, Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Lavras, 2020, pp. 208 a 219, com base em Vilela (2007) e Oliveira (1995); a mesma revista traz a lista dos jornais lavrenses, com o Cine Jornal de 1914, e o quadro das rádios da cidade. Curta Lavras, Histórias: Há 40 anos Lavras dava adeus aos cinemas Rio Grande e Ipê (18 de janeiro de 2024).
Mais histórias da cidade no Programa Revista da Cidade, na Rádio Cultura de Lavras 96.5 FM, de segunda a sexta, das 11h às 14h.