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Lavras teve cinema que estreou com ópera de Verdi e palco com calouros da Rádio Cultura

Do Cine Internacional de 1911 ao Cine Brasil, que funcionou até 1996, a cidade passou mais de 80 anos indo ao cinema. E o velho teatro da Rua Sant'Ana tinha nascido de uma vaquinha de 70 lavrenses.

Por André Rocha · 18/10/2026, 10:05
Direção Geral e de Jornalismo: Erlandson Araujo
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Lavras teve cinema que estreou com ópera de Verdi e palco com calouros da Rádio Cultura

Antes da televisão, do videocassete e do celular, sair de casa para ver um filme era programa de domingo, de namoro e de roupa boa. Em Lavras não foi diferente, e a cidade começou cedo: a primeira sala de cinema de que se tem registro por aqui abriu as portas em 1911, dentro de um teatro que já tinha quase meio século de história.

A história está contada em detalhes na Revista do Patrimônio Cultural de Lavras, publicada em 2020 pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do município, a partir de documentos, jornais antigos e do livro do historiador Márcio Salviano Vilela.

Um teatro feito na vaquinha

Tudo começa bem antes do cinema. Em 1862, Francisco Couto e Silva e outros 70 lavrenses se juntaram e compraram cotas de 100 mil réis cada uma, algo como 100 gramas de ouro naquele tempo, para construir o Teatro Sant'Ana. É a casa de espetáculos mais antiga de que se tem notícia na cidade.

O teatro recebia as companhias que rodavam o interior de Minas, com comédias e peças românticas. Em 1882 a Prefeitura assumiu o prédio, e a vida cultural ferveu: havia ópera, concerto e peça escrita por gente da terra. Em 1901, o professor Azarias Ribeiro levou ao palco um drama, "O sacrifício por amor", e uma comédia de título que diz muito sobre a época: "Genro abolicionista e sogra escravocrata".

25 de março de 1911: chega o cinema

Com a energia elétrica veio a novidade. Em 25 de março de 1911, o velho teatro passou a abrigar o Cine Internacional, do empresário Francisco Pizzolante.

Pizzolante não fazia nada pela metade. Em 1914 ele fechou com a Prefeitura um contrato de 20 anos de aluguel, com a obrigação de reformar o prédio inteiro. No mesmo ano, lançou até um jornal para divulgar a programação: o Cine Jornal, um vespertino em formato tabloide, distribuído de graça.

A estreia com "Aida"

A reforma ficou pronta em 15 de fevereiro de 1917, e o prédio reabriu com um nome comprido, que hoje soa engraçado: Teatro Cinema Internacional Bar. Para a estreia, Lavras recebeu a Grande Companhia Lírica Italiana Rotoli-Billoro, que apresentou a ópera "Aida", de Giuseppe Verdi, e ficou na cidade o mês todo com outras óperas famosas. Segundo a revista, Lavras ganhou ali uma das melhores casas de espetáculo do interior do Brasil.

Nas décadas seguintes, já chamado de Cine-Teatro Municipal, o prédio revezava sessão de cinema, peça de teatro, ópera e concerto, sempre tocado por empresários que alugavam o espaço da Prefeitura.

A fachada do Teatro Cinema Internacional Bar, reinaugurado em 1917 no antigo Teatro Sant'Ana, em Lavras
A fachada do Teatro Cinema Internacional Bar, reinaugurado em 1917 no antigo Teatro Sant'Ana, em Lavras
A Rua Sant'Ana, com o prédio do Teatro Municipal de Lavras no meio do quarteirão
A Rua Sant'Ana, com o prédio do Teatro Municipal de Lavras no meio do quarteirão
O bar do Teatro, com a sala de bilhares, as mesas de madeira e as cristaleiras no hall de entrada
O bar do Teatro, com a sala de bilhares, as mesas de madeira e as cristaleiras no hall de entrada
A plateia lotada do Teatro Municipal de Lavras, que também era o cinema da cidade, nos anos 1940
A plateia lotada do Teatro Municipal de Lavras, que também era o cinema da cidade, nos anos 1940
O interior do Teatro Municipal de Lavras, com os camarotes decorados e o palco ao fundo, nos anos 1940
O interior do Teatro Municipal de Lavras, com os camarotes decorados e o palco ao fundo, nos anos 1940
Os camarotes do Teatro Municipal, com os gradis decorados que contornavam a plateia
Os camarotes do Teatro Municipal, com os gradis decorados que contornavam a plateia

Domingo de calouro, com a Rádio Cultura

A revista aponta 1947 como talvez o auge do teatro. A Rádio Cultura, que acabava de ser inaugurada (o texto registra o nome da época, Rádio Cultura d'Oeste), levava ao palco, aos domingos, um programa de calouros, variedades e literatura chamado "Um milhão de novidades". Os apresentadores eram os locutores Elcídio Grandi e Alfredo Mussi, e o palco recebia cantores, humoristas e artistas lavrenses, com plateia cheia e animada.

O Cine Ipê, o Cine Aparecida e o Cine Brasil

Em 1949, a empresa que alugava o teatro inaugurou um cinema em prédio próprio, com aparelhagem moderna: o Cine Ipê, na movimentada zona norte da cidade, onde ficavam as fábricas e a estação ferroviária.

A Avenida Pedro Salles, na zona norte de Lavras, onde funcionou o Cine Ipê, aberto em 1949
A Avenida Pedro Salles, na zona norte de Lavras, onde funcionou o Cine Ipê, aberto em 1949
O prédio do Cine Ipê, na esquina da Avenida Pedro Salles, com o público na calçada à espera da sessão
O prédio do Cine Ipê, na esquina da Avenida Pedro Salles, com o público na calçada à espera da sessão

Em 1955, um grupo de lavrenses ainda tentou transformar o velho teatro em centro cultural da cidade, com biblioteca e museu. O autor da proposta era o jornalista Sílvio do Amaral Moreira, o Bi Moreira, que mostrou fotos do interior do prédio ao patrimônio histórico nacional. O chefe regional do órgão ficou impressionado e considerou o teatro um dos mais interessantes do país. O arquiteto Lúcio Costa, o mesmo que depois desenhou o plano de Brasília, respondeu por escrito que "seria o cúmulo do mau gosto desfigurá-lo".

O tempo, porém, era outro, e a cidade queria novidade. Em 1960 os empresários do ramo fundaram a Empresa Cinematográfica União e abriram o Cine Aparecida, no auditório do Colégio Nossa Senhora Aparecida. Dois anos depois, em 10 de fevereiro de 1962, inauguraram num terreno ao lado da Primeira Igreja Presbiteriana o cinema que muita gente ainda guarda na memória: o Cine Brasil, que funcionou ali até 1996. O prédio ficava de frente para a Praça Dr. Augusto Silva, onde hoje funciona uma agência do Bradesco, e tinha 400 lugares, segundo o site Curta Lavras.

A construção do Cine Brasil, no terreno ao lado da Primeira Igreja Presbiteriana, de frente para a Praça Dr. Augusto Silva, pouco antes da inauguração de 1962
A construção do Cine Brasil, no terreno ao lado da Primeira Igreja Presbiteriana, de frente para a Praça Dr. Augusto Silva, pouco antes da inauguração de 1962
O Cine Brasil, ao lado da Primeira Igreja Presbiteriana, na Praça Dr. Augusto Silva, em Lavras, em cartão-postal dos anos 1960
O Cine Brasil, ao lado da Primeira Igreja Presbiteriana, na Praça Dr. Augusto Silva, em Lavras, em cartão-postal dos anos 1960
A família Torquetti na calçada do Cine Brasil, com os cartazes dos filmes em cartaz expostos na parede de tijolinho
A família Torquetti na calçada do Cine Brasil, com os cartazes dos filmes em cartaz expostos na parede de tijolinho
Moças diante da fachada do Cine Brasil, com os Fuscas estacionados na Praça Dr. Augusto Silva
Moças diante da fachada do Cine Brasil, com os Fuscas estacionados na Praça Dr. Augusto Silva
A fachada do Cine Brasil com o letreiro e os cartazes na parede de tijolinho. Muita gente lembra de ter visto ali os filmes do Mazzaropi, "Dio, come ti amo" e até os Cavaleiros do Zodíaco
A fachada do Cine Brasil com o letreiro e os cartazes na parede de tijolinho. Muita gente lembra de ter visto ali os filmes do Mazzaropi, "Dio, come ti amo" e até os Cavaleiros do Zodíaco
Júlio César Torquetti ao lado do projetor do Cine Brasil. A família Torquetti cuidou das sessões do Cine Ipê e do Cine Brasil
Júlio César Torquetti ao lado do projetor do Cine Brasil. A família Torquetti cuidou das sessões do Cine Ipê e do Cine Brasil

O velho Cine-Teatro da Rua Sant'Ana foi demolido naquele mesmo ano de 1962. No terreno funciona hoje uma galeria de escritórios.

E você, lembra?

Quem viu filme no Cine Brasil ou no Cine Ipê, quem foi à matinê de domingo, quem namorou no escurinho, quem guarda ingresso, cartaz ou foto antiga de fachada, pode procurar a redação da Rádio Cultura. A gente também quer saber quando o Cine Ipê e o Cine Aparecida fecharam as portas, coisa que a pesquisa não registra. Memória de cidade se remonta assim, um pedaço de cada vez.

Na capa, o Cine Brasil, na Praça Dr. Augusto Silva, nos anos 1960.

Fontes

Németh-Torres, Geovani. História da preservação do patrimônio cultural de Lavras (1940-1984), Revista do Patrimônio Cultural de Lavras, ano 1, n. 1, Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural de Lavras, 2020, pp. 208 a 219, com base em Vilela (2007) e Oliveira (1995); a mesma revista traz a lista dos jornais lavrenses, com o Cine Jornal de 1914, e o quadro das rádios da cidade. Curta Lavras, Histórias: Há 40 anos Lavras dava adeus aos cinemas Rio Grande e Ipê (18 de janeiro de 2024).

Mais histórias da cidade no Programa Revista da Cidade, na Rádio Cultura de Lavras 96.5 FM, de segunda a sexta, das 11h às 14h.

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