A manteiga de Lavras que ganhou medalha de ouro no Rio: a fábrica da Escola Agrícola
Antes de virar UFLA, a escola fazia mais de 2 mil quilos de manteiga Agrícola Nova por mês, tinha máquina de gelo dinamarquesa e vendia para o Rio, São Paulo e Belo Horizonte

Antes de virar UFLA, a Escola Agrícola de Lavras tinha uma fábrica de manteiga que mandava produto para o Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. A marca se chamava Agrícola Nova, saía da Fazenda Modelo da escola e chegou a ganhar medalha de ouro no Rio, em 1929.
A história está guardada no projeto Memórias UFLA, que reúne documentos, fotos e a revista O Agricultor, publicada pela própria escola nos anos 1920 e 1930.

Leite na sala de aula
A ideia vinha do fundador da escola, o missionário Samuel Rhea Gammon. Em 1908, ele escreveu que o curso de agricultura tinha que ensinar a plantar, a colher, a criar gado e a fazer o que Minas Gerais mais sabia fazer: laticínio. A matéria de Laticínios entrou no último ano do curso, e as aulas práticas começaram em 1909, na Fazenda Modelo Ceres.
Naquele mesmo ano, o diretor Benjamin Hunnicutt já tinha comprado as primeiras máquinas para fazer manteiga e pasteurizar leite. Era uma aposta ousada: no Brasil havia poucas fábricas, e ainda se vendia manteiga importada da França.

Um prédio só para o leite
Em 1929 ficou pronto o Edifício de Laticínios, antes até do Prédio Odilon Braga, um dos quatro principais da escola. Tinha máquinas para manteiga e queijo e um laboratório para analisar o leite, com aparelhos para medir gordura, acidez, sal e impurezas.
A grande novidade era uma máquina de fazer gelo, da fabricante dinamarquesa Atlas, de Copenhague. Segundo o jornal Tribuna do Povo, de 1928, ela produzia de 336 a 380 quilos de gelo em 24 horas, numa época em que gelo em Lavras era luxo.


Mais de 2 mil quilos por mês
Os motores elétricos tocavam a desnatadeira, a batedeira, a salgadeira e a espremedeira. Uma caldeira a vapor garantia o motor de emergência e esterilizava os aparelhos. Por mês, a fábrica produzia mais de 2 mil quilos de manteiga. O leite pasteurizado também era entregue na cidade, em vasilhames esterilizados.
O encarregado da fábrica era o senhor José Firmino de Souza, o Seu Nenê. As análises de laboratório ficavam com o senhor Antonio Mendes de Carvalho, auxiliar técnico, que também escrevia artigos para O Agricultor.


Duas medalhas de ouro
A qualidade rendeu prêmio. A Agrícola Nova levou medalha de ouro na 2ª Exposição de Leite e Derivados, no Rio de Janeiro, em 1929, e outra na exposição dos 50 anos da Estrada de Ferro Sul de Minas, em 1934. A escola também levava seus produtos para as exposições agropecuárias da época.

A vaca Rainha e o touro Primus
O leite vinha de rebanhos melhorados das raças Holandesa e Schwytz, com reprodutores puros trazidos dos Estados Unidos e da Europa. O Agricultor publicava até as estrelas do estábulo: o touro Primus, importado da América do Norte, e a vaca Rainha, que dava dez litros de leite por dia. O estábulo ficava bem em frente ao prédio do laticínio.

Quase cem anos depois, a lição continua em sala. A antiga matéria de Laticínios hoje se chama Tecnologia de Leite e Produtos Lácteos e é dada aos alunos de Zootecnia da UFLA.

E você, lembra?
Alguém da sua família comprou a manteiga Agrícola Nova ou trabalhou no laticínio da Escola Agrícola? Quem guarda lata, rótulo ou foto antiga pode procurar a redação da Rádio Cultura.
Fontes
Memórias UFLA, Edifício de Laticínios: fábrica de manteiga e ensino (memorias.ufla.br), com base em O Agricultor (1925 a 1936), no prospecto da Escola Agrícola de 1931, no jornal Tribuna do Povo (1928) e no acervo do Museu Bi Moreira.
Mais histórias da cidade no Programa Revista da Cidade, na Rádio Cultura de Lavras 96.5 FM, de segunda a sexta, das 11h às 14h.