Cirurgião diz ter feito em Moscou o primeiro transplante de medula espinhal do mundo; cientistas pedem cautela
Equipe chinesa e russa retirou o trecho lesionado da medula de um paciente paralisado há três anos e implantou um segmento de doador em morte cerebral; nenhum dado clínico foi publicado até agora.

Um paciente com paralisia recebeu, em Moscou, um segmento de medula espinhal retirado de um doador em morte cerebral. É o que afirma o cirurgião chinês Xiaoping Ren, que apresenta o procedimento como o primeiro transplante desse tipo no mundo. A cirurgia, feita em meados de outubro, durou 12 horas.
Ren, do Segundo Hospital Afiliado da Universidade de Medicina Chinesa de Guangxi, contou à revista científica New Scientist que operou ao lado de colegas russos no Instituto Sklifosovsky de Medicina de Emergência, um dos principais hospitais de urgência da capital russa.
Como foi a cirurgia
O paciente é um adulto que sofreu lesão completa na medula espinhal há três anos. Segundo o cirurgião, a equipe retirou a parte danificada e, no lugar, conectou o segmento do doador. Para isso, usou microcirurgia e polietilenoglicol, uma substância química que, de acordo com a equipe, ajudaria as fibras nervosas a se reconectarem.
O prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, anunciou a operação em 17 de outubro e declarou que o paciente "está se sentindo bem no momento". Até agora, porém, ninguém relatou melhora nos movimentos nem volta da sensibilidade.
Por que a comunidade científica desconfia
Xiaoping Ren é conhecido por ter defendido, junto com o cirurgião italiano Sergio Canavero, um projeto de transplante de cabeça humana que nunca saiu do papel. Sobre a nova cirurgia, nenhum dado clínico foi publicado ou enviado para a revisão de outros cientistas, etapa que dá validade a qualquer avanço médico.
Especialistas também questionam os testes em animais que serviram de base para a técnica. Os experimentos usaram, em sua maioria, medulas recém-cortadas, em poucos animais, e não lesões antigas como a desse paciente. Há ainda preocupação com o risco de infecção e de complicações cirúrgicas graves.
O que já funciona
Enquanto isso, métodos mais estudados já devolveram parte dos movimentos a pessoas com lesões antigas na medula. Entre eles estão os implantes que fazem a ponte entre o cérebro e a medula espinhal e as técnicas de estimulação elétrica.
Até que os resultados da cirurgia de Moscou sejam publicados e avaliados por outros pesquisadores, o procedimento segue como uma alegação, e não como um avanço médico confirmado.