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Memória

Os 70 nomes no bronze: a história dos pracinhas de Lavras na Segunda Guerra

Monumento no centro da cidade lista os lavrenses que lutaram na Itália. Três morreram em combate, e o Todão chegou a ser dado como morto antes de voltar para casa

Por André Rocha · 19/10/2026, 18:35
Direção Geral e de Jornalismo: Erlandson Araujo
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São 70 nomes gravados numa placa de bronze no centro de Lavras. Todos são de lavrenses que lutaram na Itália com a Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Segunda Guerra Mundial. Três deles não voltaram.

Na sexta-feira (16), dois jovens teriam subido no Monumento aos Expedicionários, no Centro de Lavras, e o monumento acabou derrubado e quebrado (leia aqui). Depois do vandalismo, a Rádio Cultura decidiu homenagear os pracinhas lavrenses e contar a história deles em vídeo, com cenas de época e as fotos do monumento feitas pelo jornalista André Rocha.

A placa do Monumento aos Pracinhas Lavrenses, com os nomes dos ex-combatentes da cidade. Foto: André Rocha/Rádio Cultura de Lavras
A placa do Monumento aos Pracinhas Lavrenses, com os nomes dos ex-combatentes da cidade. Foto: André Rocha/Rádio Cultura de Lavras

Lavras vai para a rua

Em 22 de agosto de 1942, dia em que o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália, Lavras fez uma grande manifestação a favor da entrada do país no conflito. Em 10 de setembro, a Praça Augusto Silva recebeu a "Pirâmide Metálica": a população foi chamada a doar ferro e outros metais para a indústria de guerra.

O clima também teve um lado amargo. Imigrantes italianos que viviam na cidade passaram a ser vistos com desconfiança, e muitos foram presos acusados de colaborar com o inimigo. Em 27 de outubro de 1942, a Prefeitura proibiu férias e licenças dos servidores municipais enquanto durasse o estado de guerra.

De São João del-Rei para a Itália

Os rapazes convocados em Lavras foram servir no quartel de São João del-Rei. Em 1944, a FEB levou mais de 25 mil brasileiros para a Itália. O primeiro grupo desembarcou em julho daquele ano.

Um desses lavrenses era João Carvalho Pena, o Todão, nascido em Lavras em 10 de maio de 1919. Pedreiro, ele foi para São João del-Rei em 1942 para cumprir um ano de serviço militar. Com o mundo em guerra, foi mantido no quartel e, em setembro de 1944, embarcou para a Itália com outros colegas, "inclusive os de Lavras". Desembarcou em Nápoles, passou por Livorno, Pisa e Belvedere e ficou seis meses no front. Lutou em Monte Castelo e em Montese.

"Só mesmo quem esteve num campo de batalha pode falar daquele inferno", contou ele ao escritor José Alves de Andrade, que registrou a história no livro Gente da Terra.

Os três que não voltaram

Monte Castelo foi tomado pelos brasileiros em 21 de fevereiro de 1945, depois de meses de ataques. Em abril veio Montese, uma das batalhas mais duras da campanha.

A placa do monumento registra os três lavrenses mortos em combate: Joaquim Onílio Borges, em Monte Castelo; Joaquim Severino, em Montese; e José Antônio dos Santos, em Pistoia. Segundo o Jornal de Lavras, a cidade parou em 22 de janeiro de 1945 para chorar a morte do cabo Joaquim Severino, o primeiro lavrense a tombar na Itália.

Os três lavrenses mortos em combate na Itália, no alto da placa do monumento. Foto: André Rocha/Rádio Cultura de Lavras
Os três lavrenses mortos em combate na Itália, no alto da placa do monumento. Foto: André Rocha/Rádio Cultura de Lavras

Dado como morto

O Todão quase entrou para essa lista. No fim da guerra, recebeu a missão de buscar armas da rendição e sofreu um acidente na estrada: três companheiros morreram, e ele quase perdeu a perna esquerda. Não voltou com a tropa. Foi tratado por cerca de três meses nos Estados Unidos, em Nova Orleans e Miami. Demorou tanto que, em Lavras, pensaram que ele tinha morrido.

Quando chegou, foi recebido como herói. Trabalhou na Prefeitura de Lavras de 1946 até se aposentar, em 1979, e recebeu medalha e diploma de Honra ao Mérito do presidente Juscelino Kubitschek. O nome dele, João Carvalho Penna, está na placa.

O monumento

O Monumento aos Pracinhas Lavrenses foi inaugurado em 27 de março de 1987, na então Praça da Bandeira. A placa de bronze, datada de fevereiro de 1987, diz que o monumento simboliza "o reconhecimento e a gratidão da comunidade lavrense aos seus filhos que bravamente lutaram nos campos da Itália, em defesa dos ideais de liberdade".

Em 8 de maio de 2012, a Prefeitura acrescentou uma placa em reconhecimento a Murilo Paiva, "lavrense que também lutou nos campos da Itália".

Placa da Prefeitura de Lavras, de 2012, em homenagem ao ex-combatente Murilo Paiva. Foto: André Rocha/Rádio Cultura de Lavras
Placa da Prefeitura de Lavras, de 2012, em homenagem ao ex-combatente Murilo Paiva. Foto: André Rocha/Rádio Cultura de Lavras

Fontes: placa do Monumento aos Pracinhas Lavrenses; Jornal de Lavras (22 de março de 2014); livro Gente da Terra, de José Alves de Andrade (2000). Se você é parente de um dos pracinhas de Lavras e tem fotos ou histórias deles, fale com a redação da Rádio Cultura.

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