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Memória

O professor negro que ensinou 5.250 trabalhadores a ler à noite em Lavras

No Dia do Professor, a história de José Luiz de Mesquita, que abriu a Escola Noturna em 1910, deu aula por 44 anos e chegou a formar avô, filho e neto na mesma turma

Por André Rocha · 15/10/2026, 06:03
Direção Geral e de Jornalismo: Erlandson Araujo
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O professor negro que ensinou 5.250 trabalhadores a ler à noite em Lavras

Em 44 anos de sala de aula, o professor José Luiz de Mesquita alfabetizou cerca de 5.250 trabalhadores em Lavras. Dava aula à noite, para operários maiores de 14 anos, e numa mesma formatura chegou a diplomar avô, filho e neto.

A conta é de um estudo acadêmico sobre a Escola Noturna de Lavras, publicado em 2014 por Kennedy Alemar da Silva e Dayane Ferreira Martins na revista Saberes Interdisciplinares, de São João del-Rei. Os autores reconstituíram a história com jornais da época e documentos do Museu Bi Moreira, da UFLA.

Neste 15 de outubro, Dia do Professor, a série Profissão do Dia lembra o professor que hoje dá nome a uma escola municipal e tem um busto ao lado da Igreja do Rosário.

Nascido um ano antes da Lei Áurea

José Luiz de Mesquita nasceu em 1887, um ano antes da abolição da escravatura. Homem negro, foi jornalista, regente de uma banda formada por negros e representante dos operários da região, segundo o estudo.

Em 1903, o jornal Folha de Lavras já registrava os serviços que ele prestava, sem cobrar, como regente na escola do professor Azarias Ribeiro.

Uma escola para quem trabalhava de dia

A Escola Noturna, também chamada de Escola Operária, foi inaugurada em 12 de outubro de 1910. Funcionou por muito tempo na Rua D. Inácia, na sede da Sociedade Beneficente dos Operários Lavrenses, outra entidade que ele fundou, em 1909.

O trabalho não tinha salário. Em 1916, quando a Liga Antianalfabética de Lavras ficou sem professor, o Major Cândido Prado convidou José Luiz para assumir a escola da Liga. Ele recusou: já mantinha a sua "com sacrifícios". A saída foi juntar as duas escolas numa só.

Em 1920, ele dava aula para cerca de 95 alunos. Os autores do estudo encontraram diários de classe com mais de 110.

Em 1922, com o fim da Liga marcado para 7 de setembro, o professor avisou que a escola dele continuaria. A frase foi publicada pelo jornal Acrópole em 1987:

"Enquanto vida tiver e com a ajuda de Deus, levarei sobre meus ombros a escola que criei e não consinto seja ela fechada."

José Luiz de Mesquita, em 1922 (Acrópole, 1987)

Professor do Estado a partir de 1922

No dia 24 de agosto de 1922, o Estado de Minas Gerais oficializou a escola, que virou Escola Noturna Estadual de Lavras, e nomeou José Luiz professor estadual. Ele ficou no cargo até se aposentar, em 1954. A escola fechou no mesmo ano.

Em 1972, a Tribuna de Lavras chamou a escola dele de "precursora do Mobral", o programa federal de alfabetização de adultos criado em 1967.

Banda, jornal e juiz de paz

Fora da sala de aula, ele fundou a Banda Euterpe Operária, em 1910, e o jornal O Operário, que sustentou por três anos. Escreveu para jornais de Lavras, de São João del-Rei e de Nepomuceno, onde colaborou com A Abelha e O Verbo. Trocava cartas com Rui Barbosa, entre outros nomes da época.

Foi eleito juiz de paz em 1950 e ficou no cargo até 1955.

O professor que ajudou a salvar a Igreja do Rosário

Em 1940, surgiu o plano de demolir a Igreja do Rosário para dar lugar a um clube social. José Luiz de Mesquita, um dos fundadores da Sociedade São Vicente de Paulo em Lavras, levou o caso à imprensa ao lado do cônego Francisco Maria Bueno de Sequeira e avisou Rodrigo Melo Franco de Andrade, diretor do órgão federal de patrimônio que deu origem ao Iphan. A demolição foi barrada, e a igreja foi tombada como patrimônio nacional em 1948. O episódio é contado pelo historiador Geovani Németh-Torres no livro Prof. José Luiz de Mesquita e a preservação da Igreja do Rosário de Lavras, de 2025.

O nome que ficou na cidade

José Luiz de Mesquita morreu em 16 de junho de 1967, seis dias antes de completar 80 anos.

Em 1958, ainda em vida, a Prefeitura de Lavras deu o nome dele à antiga escola noturna. Mais tarde, o Movimento Consciência Negra Lavrense (Consnel) ergueu um busto do professor ao lado da Igreja do Rosário, numa cerimônia com a Banda Euterpe Operária. A placa do monumento tem a data de 22 de junho de 1988, dia em que ele faria 101 anos. Hoje, a Escola Municipal Professor José Luiz de Mesquita atende crianças da pré-escola ao 9º ano no Conjunto Habitacional Cidade Nova.

Busto do professor José Luiz de Mesquita ao lado da Igreja do Rosário, em Lavras
Busto do professor José Luiz de Mesquita, ao lado da Igreja do Rosário · Foto: André Rocha/Rádio Cultura

Nesta semana do Dia do Professor, o portal também contou a história de Firmino Costa, o primeiro diretor do Grupo Escolar de Lavras. Quem tiver foto, documento ou lembrança de José Luiz de Mesquita pode mandar para a redação da Rádio Cultura, na 96.5 FM.

Fontes: artigo "Educação de jovens e adultos: a Escola Noturna de Lavras (1910-1954)", de Kennedy Alemar da Silva e Dayane Ferreira Martins (Saberes Interdisciplinares, n. 13, 2014), baseado nos jornais A Gazeta, O Município, Acrópole e Tribuna de Lavras e no acervo do Museu Bi Moreira; livro de Geovani Németh-Torres (Série Lavrensiana, 2025), citado no verbete da Igreja do Rosário de Lavras na Wikipédia; cadastro escolar da Escola Municipal Professor José Luiz de Mesquita. Na capa, o busto do professor ao lado da Igreja do Rosário, em Lavras. Foto: André Rocha/Rádio Cultura.

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